Cantares 2.15
“Apanhai-nos as raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas, porque as nossas vinhas estão em flor.”
Ponto de partida
O que pode desorganizar uma boa equipe, formada por pessoas competentes e comprometidas com o mesmo projeto?
Nem sempre o problema começa com uma grande crise. Muitas vezes, tudo nasce de algo que parecia pequeno. Uma agenda que não foi atendida, uma mensagem que ficou sem resposta, uma informação que não chegou ou uma decisão que alguém não compreendeu.
Pode começar também com uma brincadeira inconveniente, uma crítica feita no grupo errado, uma fofoca ou aquele comentário conhecido.
“Fulano disse que…”
Quando percebemos, algo que poderia ter sido resolvido em dois ou cinco minutos já consumiu o dia inteiro de dez pessoas.
Cantares apresenta uma imagem muito interessante. Pequenas raposas entravam em uma vinha que estava florescendo.
A vinha estava bem, produzindo e cheia de flores, mas ainda precisava de cuidado. A raposinha parecia pequena diante de toda a plantação. O problema estava no dano que ela poderia causar caso permanecesse ali.
Dentro de uma equipe acontece algo parecido. O perigo não está somente nos grandes problemas, mas também nas pequenas falhas que deixamos crescer porque não cuidamos delas enquanto ainda eram pequenas.
Raposinhas que nascem dentro da própria equipe
Efésios 4.29
“Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação.”
Uma equipe pode ter boa estrutura, recursos, experiência e pessoas muito competentes e, mesmo assim, perder tempo e energia com problemas criados entre os próprios colegas.
Essas raposinhas aparecem na fofoca, na vaidade, na competição entre pessoas, na informação incompleta, na reclamação feita sem a busca de uma saída, na promessa de agenda que ninguém confirmou, na disputa por proximidade com a liderança, na crítica pelas costas, na resistência em reconhecer erros e no costume de levar uma decisão profissional para o lado pessoal.
Elas aparecem também quando alguém cria uma versão antes de conhecer os fatos.
Pense em uma situação simples. Uma liderança solicita uma agenda e, por alguma razão, o compromisso não acontece. Até esse momento, existe apenas um problema administrativo que precisa ser verificado e resolvido.
Só que alguém comenta.
“Não atenderam porque não valorizam você.”
Outra pessoa acrescenta.
“Também fizeram isso comigo.”
Logo depois, alguém afirma.
“Estão privilegiando fulano.”
Pronto. Uma agenda não atendida se transforma em conflito de relacionamento. A raposinha entrou na vinha.
A pergunta deixou de ser “por que a agenda não aconteceu?” e virou “quem está contra quem?”.
Cada integrante da equipe precisa fazer uma reflexão sincera.
“Depois de conversar comigo, meus colegas ficam mais preparados para trabalhar ou saem ainda mais carregados?”
Cada pessoa precisa decidir se será alguém que ajuda a resolver ou alguém que aumenta o tamanho do problema.
Algumas pessoas chegam trazendo uma saída. Outras chegam trazendo incêndio. Há ainda quem encontre uma pequena fumaça e faça parecer que tudo está queimando.
Caminho para impedir esse dano
Precisamos cultivar lealdade, comunicação direta, respeito, verdade, integridade, escuta e maturidade.
Quando tenho um problema com alguém, procuro essa pessoa. Quando recebo uma informação grave, verifico antes de repetir. Quando alguma coisa dá errado, tento primeiro compreender o que aconteceu.
Uma equipe saudável conversa com as pessoas, não sobre as pessoas.
Cuidado com a unidade
Eclesiastes 4.9 e 10
“Melhor é serem dois do que um… Porque, se caírem, um levanta o companheiro.”
Nenhuma campanha, instituição ou grande projeto é construído por uma pessoa sozinha.
Alguém cuida da agenda, outra pessoa acompanha a logística, outra trabalha com as questões jurídicas, outra cuida da comunicação e outras seguem com a organização e o trabalho nas ruas.
Quando cada pessoa compreende sua responsabilidade, as diferenças deixam de parecer ameaça e começam a completar o trabalho da equipe.
Existe, porém, algo que precisa ser protegido todos os dias. A unidade.
Unidade não significa pensar igual em tudo. Pessoas maduras podem discordar, corrigir umas às outras e dizer com respeito que pensam de maneira diferente.
O problema começa quando uma divergência profissional se transforma em conflito pessoal.
Nem todo problema é uma crise. Uma agenda perdida não é uma crise. Uma falha na comunicação não precisa virar uma crise. Um erro operacional não precisa produzir rompimento. Uma discordância também não precisa transformar colegas em adversários.
Pergunta para a equipe
“Quais pequenas coisas estamos permitindo que roubem nosso tempo, nossa energia e nosso propósito?”
Talvez sejam os muitos grupos de mensagens, as informações desencontradas, as fofocas, as vaidades, as disputas entre colegas, a falta de definição sobre responsabilidades ou as pequenas mágoas acumuladas.
Talvez sejam problemas que deveriam ser tratados diretamente com a pessoa envolvida, mas acabam circulando por toda a equipe.
Uma equipe pode gastar tanta energia tentando administrar os próprios conflitos que começa a perder a disposição necessária para realizar o trabalho para o qual foi formada.
Como apanhar as raposinhas
Não existe equipe sem problemas. Existe equipe que aprende a reconhecer, tratar e resolver seus problemas.
O primeiro passo é identificar. Quando perceber que algo está errado, não finja que nada aconteceu.
Depois, verifique. Antes de acreditar ou compartilhar uma informação, conheça os fatos e procure saber o que realmente ocorreu.
Converse com a pessoa envolvida. Sempre que possível, um problema com alguém deve começar sendo tratado com esse alguém.
Resolva rapidamente. Aquilo que hoje exige uma conversa de cinco minutos pode exigir uma reunião de duas horas amanhã.
Proteja a unidade. Nem tudo precisa circular entre todos. Nem todas as pessoas precisam saber de cada detalhe. Os problemas devem chegar a quem possui responsabilidade, equilíbrio e condições de resolvê-los.
Ore. Continuamos sendo cristãos enquanto trabalhamos. Precisamos pedir a Deus sabedoria, domínio próprio, humildade e discernimento para lidar uns com os outros.
Reflexão pessoal
“Existe alguma raposinha que eu mesmo estou alimentando?”
Tenho espalhado comentários? Tenho aumentado problemas? Tenho guardado ressentimento? Tenho levado decisões profissionais para o lado pessoal?
Tenho procurado a pessoa certa quando surge uma dificuldade? Tenho ajudado a encontrar uma solução ou apenas procurado culpados?
A mudança no ambiente começa quando cada pessoa assume a responsabilidade pelo que fala, pelo que compartilha e pelo modo como trata os demais.
Palavra final
A vinha está em flor. Existe trabalho sendo realizado e há pessoas competentes envolvidas.
Também existem diferenças, falhas e dificuldades, porque tudo isso faz parte da convivência entre pessoas.
Não permitamos que coisas pequenas destruam coisas grandes. Uma fofoca não pode ser maior que a amizade e o respeito entre os colegas.
Uma agenda frustrada não pode destruir uma parceria. Uma falha na comunicação não pode produzir uma guerra. Uma divergência não pode transformar companheiros de trabalho em adversários.
Errou? Corrija.
Não entendeu? Pergunte.
Foi ferido? Converse.
Ouviu uma fofoca? Não alimente.
Existe um problema? Ajude a resolver.
Depois disso, sigamos trabalhando.
“Apanhem as raposinhas enquanto ainda são pequenas, porque uma equipe saudável não é aquela em que nunca surgem problemas, mas aquela que não permite que problemas pequenos se tornem maiores que o propósito que reuniu seus integrantes.”
Tiago 3.18
“E todos aqueles que são pacificadores plantarão sementes de paz e colherão o fruto da justiça.”
Leudo Buriti é casado, pai e avô. É advogado, pastor, psicanalista, escritor e conferencista em temas ligados à família.

