Poucos casamentos terminam de repente. Antes da separação formal, normalmente aconteceu uma separação silenciosa. O diálogo diminuiu, a admiração foi desaparecendo, as palavras ficaram mais duras, a intimidade perdeu espaço e aquilo que antes incomodava passou a ser tratado como normal.
É assim que agem os sabotadores do casamento. Eles nem sempre chegam fazendo barulho. Muitas vezes entram na rotina através de pequenas concessões e, quando marido e esposa percebem, já existe uma distância entre os dois.
A Bíblia nos dá uma advertência preciosa: “Apanhai-nos as raposas, as raposinhas, que devastam os vinhedos.” (Cantares 2:15)
Gosto muito desse texto; tente olhar a descrição do verso como em uma imagem.
Talvez não sejam apenas as grandes crises que ameacem um casamento. Precisamos vigiar também as “raposinhas”: pequenos comportamentos repetidos que começam a destruir aquilo que levou anos para ser construído.
Quero destacar alguns deles.
1. A DESONRA
Um dos primeiros sabotadores é a perda da admiração. É quando o marido deixa de enxergar as virtudes da esposa e passa a enxergar somente seus defeitos. Ou quando a esposa passa a tratar o marido como alguém que nunca faz nada direito.
Começam as ironias, as comparações. As críticas diante dos filhos, as brincadeiras que constrangem, a exposição diante dos amigos. Isso vai produzindo uma ferida profunda: a pessoa é respeitada por todos lá fora, mas dentro da própria casa sente-se diminuída.
A Escritura Sagrada estabelece outro padrão: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.” (Romanos 12:10)
Casamento precisa de honra. Seu cônjuge precisa saber que, apesar de suas imperfeições, continua sendo alguém que você admira, respeita e valoriza.
E como combater esse sabotador? Volte a elogiar, reconheça as qualidades e agradeça pelas pequenas coisas. Jamais transforme as fragilidades do seu cônjuge em assunto para divertir outras pessoas.
2. A COMUNICAÇÃO QUE FERE
Palavras constroem ambientes. Há casas onde ninguém agride fisicamente ninguém, mas as palavras machucam todos os dias. Provérbios 18:21 ensina que “a morte e a vida estão no poder da língua.”
Existem frases pronunciadas em alguns segundos que permanecem durante anos na memória.
“Você não serve para nada.” “Eu me arrependo de ter casado com você.” “Fulano é muito melhor marido do que você.” “Você nunca faz nada direito.”
Depois vem a justificativa: “Eu estava nervoso.” Mas a palavra já foi lançada. Discordar faz parte do casamento, humilhar não.
O antídoto é aprender a tratar o problema sem destruir a pessoa. Em vez de:
“Você é irresponsável.” Diga:
“Precisamos conversar sobre essa atitude porque ela está nos prejudicando.”Parece uma diferença pequena, mas não é. Uma frase ataca a identidade. A outra enfrenta o problema.
3. O ORGULHO
Talvez esse seja um dos sabotadores mais silenciosos. É a dificuldade de dizer: “Eu errei.”
Há casamentos nos quais os dois sabem exatamente quem deveria pedir perdão, mas ninguém toma a iniciativa. Um espera, o outro também. E o orgulho vai construindo um muro.
O Apóstolo Paulo na carta aos Efésios 4 nos ensina a abandonar a amargura e a tratar uns aos outros com bondade e compaixão, perdoando como fomos perdoados em Cristo. Pedir perdão não diminui ninguém, ao contrário.
É preciso muita maturidade para olhar nos olhos da pessoa que amamos e dizer:“Eu estava errado. Perdoe-me.” E o perdão não deve ser usado para encobrir comportamentos que continuam se repetindo. Arrependimento verdadeiro produz mudança de direção.
Pesquisas sobre perdão nas relações familiares também associam o perdão a aspectos positivos do relacionamento e do ambiente familiar.
4. A NEGLIGÊNCIA
Casamento também morre por falta de cuidado. No começo há conversa, há interesse, há tempo juntos, há carinho. Mas depois chegam trabalho, contas, filhos, responsabilidades, celular, compromissos e cansaço.
Sem perceber, muitas vezes, marido e esposa começam apenas a administrar a casa. Tornam-se excelentes sócios, excelentes pais. Excelentes profissionais, contudo, deixam de ser namorados, íntimos.
O casamento precisa ser cultivado. Eclesiastes 4:9 nos lembra: “Melhor é serem dois do que um.” Mas essa parceria precisa ser alimentada, Conversem, saiam juntos, sentem-se à mesa, celebrem, orem juntos, voltem a perguntar: “Como você está?” E tenham disposição para ouvir a resposta. Não espere uma crise para voltar a cuidar de quem está ao seu lado.
5. A FALTA DE LIMITES
Todo casamento precisa de fronteiras. Existem coisas que podem começar inocentemente e terminar destruindo confiança, exemplos: Conversas escondidas, intimidade emocional excessiva com terceiros, segredos no celular, comparações com outras pessoas, exposição demasiada da vida conjugal, permitir interferências externas onde deveriam existir decisões do casal.
Gênesis estabelece um princípio poderoso: “Deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão uma só carne.” (Gênesis 2:24). Isso fala de uma nova unidade. Existem espaços da aliança que precisam ser protegidos. Não espere surgir uma tentação para estabelecer limites, a fidelidade também é construída preventivamente.
6. UMA VIDA CONJUGAL SEM DEUS
Aqui está, para mim, a questão central. Podemos aprender técnicas de comunicação, fazer cursos, ler livros e receber bons aconselhamentos e tudo isso pode ser muito útil.
Mas o casamento cristão possui algo ainda mais profundo. Ele precisa estar debaixo do governo de Deus, Jesus disse: “Sem mim nada podeis fazer.” (João 15:5)
Quando Cristo governa marido e esposa, Ele começa a governar também suas palavras, decisões, prioridades, sexualidade, dinheiro, tempo e relacionamentos.
É por isso que sempre incentivo casais a criarem o hábito de orar juntos. Não apenas quando existe uma crise, orem quando tudo estiver bem. Adorem juntos, intercedam pelos filhos, agradeçam, confessem seus erros diante de Deus.
Um casal que ora junto aprende constantemente a reconhecer que existe alguém maior do que os dois governando aquela casa.
A PREVENÇÃO COMEÇA ANTES DA CRISE
Não precisamos esperar o casamento adoecer para cuidar dele. Fazemos exames quando aparentemente estamos saudáveis porque entendemos o valor da prevenção.
Por que não fazemos o mesmo com nossos relacionamentos? De tempos em tempos, marido e esposa deveriam ter coragem para perguntar um ao outro:
“Como está o nosso casamento?” “Existe alguma coisa que estou fazendo que está machucando você?” “O que podemos melhorar?” “Você ainda se sente amado por mim?”
São perguntas simples. Mas podem impedir que pequenas rachaduras se transformem em grandes rupturas.
Quando necessário, busquem aconselhamento pastoral e ajuda profissional competente. Procurar ajuda não representa fracasso. Muitas vezes demonstra que o casal compreendeu que sua aliança vale demais para ser abandonada sem luta.
CONCLUSÃO: VOLTEM A DIZER SIM
Depois de tantos anos trabalhando com casais e famílias, continuo acreditando profundamente no casamento, não porque desconheça suas crises,
Mas, justamente porque já vi muitas delas.
Já vi casamentos que pareciam terminados serem reconstruídos. Já vi pessoas reaprenderem a conversar, já vi perdão onde havia ressentimento. Já vi admiração nascer novamente.
E aprendi que casamento saudável exige intencionalidade. O “sim” pronunciado diante de Deus (no altar ou não) iniciou uma aliança. Mas existe outro “sim” que precisa continuar sendo pronunciado durante toda a vida.
Sim para o diálogo, sim para a honra. sim para o perdão, sim para a fidelidade, sim para o cuidado, sim para Cristo.
Identifique as pequenas raposas antes que elas destruam a vinha. Proteja aquilo que Deus colocou em suas mãos. E nunca tenha vergonha de reconhecer que alguma coisa precisa mudar.
Um casamento não precisa chegar à beira do fim para começar a ser restaurado. A melhor hora para cuidar da aliança é enquanto ainda estamos caminhando juntos.
Termino esse singelo texto com a minha frase preferida. ‘Não existe casamento que esteja tão bem, que não possa melhorar ou que esteja tão mal que não possa ser completamente restaurado’.
Leudo Buriti é, advogado, pastor, escritor e conselheiro de casais e famílias. Casado com Maria desde 1990, pai e avó, é autor de Amor Geracional, Casamento, Você Disse Sim? e Guia do Casamento, e fundador do Ministério Você Disse Sim, dedicado ao fortalecimento dos casamentos e das famílias à luz dos princípios cristãos.

