Porto Velho – A comunidade acadêmica de Rondônia amanheceu em choque após um episódio que expôs, com brutal clareza, uma ferida aberta no sistema educacional brasileiro: a violência contra professores dentro dos próprios espaços de ensino. Na noite da última sexta-feira (6), a professora de Direito Juliana Santiago, de 41 anos, foi assassinada a facadas por um aluno dentro de uma sala de aula no Centro Universitário Aparício Carvalho (Fimca), em Porto Velho.
O estudante, identificado como João Júnior, foi contido por colegas e preso em flagrante pela Polícia Militar logo após o ataque. Juliana chegou a ser socorrida e levada em estado grave ao Hospital João Paulo II, mas não resistiu aos ferimentos. A motivação do crime ainda é objeto de investigação, enquanto a universidade decretou três dias de luto e suspendeu temporariamente as atividades acadêmicas em respeito à memória da docente.
Um grito que ecoa além de uma sala de aula
O assassinato de Juliana não é um caso isolado, embora sua ocorrência dentro de um espaço de ensino superior choque pela crueldade e pela intimidade do ambiente — onde se espera que o diálogo, não a violência, seja o modo de resolver conflitos. Nos últimos anos, diversos episódios no Brasil têm chamado a atenção para a segurança nas escolas: ataques a educadores e estudantes, inclusive com uso de armas brancas, têm sido registrados em diferentes estados, revelando que a violência física e simbólica tem ultrapassado os muros e carteiras escolares.
Em outras partes do país, episódios trágicos — como o ataque à Escola Estadual Thomazia Montoro em São Paulo em 2023, que resultou na morte de uma professora e deixou outros feridos — lembram que a vulnerabilidade de profissionais da educação é um problema persistente.
Além da tragédia: a rotina de medo de quem educa
Professores e professoras relatam, há anos, uma série de desafios que vão da falta de recursos até a hostilidade cotidiana por parte de estudantes e familiares. Palavras que deveriam ensinar muitas vezes encontram resistência; frustrações acadêmicas — reprovações, dificuldades de aprendizado, conflitos pessoais — têm potencial para escalar em tensões que, em casos extremos, explodem em violência física. Este último episódio em Porto Velho é um exemplo angustiante dessa escalada.
Enquanto muitos professores lidam diariamente com turmas superlotadas, falta de apoio emocional e infraestruturas precárias, a sensação de insegurança se intensifica. Não é raro ouvir relatos de ameaças nas redes sociais, intimidações dentro e fora da sala de aula, ou situações em que educadores são alvo de agressões verbais e gestos intimidatórios — todas formas de violência que corroem a autoridade e a dignidade de quem dedica a vida à formação de outras pessoas.
Segurança nas instituições de ensino: um debate urgente
O caso de Juliana coloca novamente na pauta pública a urgência de políticas eficazes de segurança e suporte psicossocial nas instituições de ensino. Medidas como formação de equipes de apoio psicológico, protocolos claros para lidar com conflitos, programas de prevenção à violência e vigilância mais eficiente são, hoje, tão essenciais quanto conteúdos curriculares.
Especialistas também ressaltam a importância de se investir na saúde mental de estudantes e educadores, criando canais de diálogo e escuta que possam detectar sinais de sofrimento ou comportamento de risco antes que situações como esta se tornem irreversíveis.
A memória de Juliana e o legado de um compromisso
Juliana Santiago era não apenas uma professora de Direito, mas também uma escrivã da Polícia Civil de Rondônia, reconhecida por sua dedicação à educação e à segurança pública. Sua morte brutal reverbera como um alerta: quando a violência invade os templos do saber, toda a sociedade perde. O desafio que se impõe agora é transformarmos a dor em motivação para construir ambientes de aprendizado mais seguros — onde o respeito, e não o medo, seja a regra.
Em meio ao luto, fica a pergunta que ecoa nas salas de aula brasileiras: quando aprenderemos a proteger quem nos ensina?



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