A capacidade de escolher bem quem trabalha ao lado de alguém é um talento raro, e quem tem esse olhar realmente carrega uma vantagem que poucos têm. Só que aí mora um problema enorme, que muita gente prefere não enxergar. Ninguém constrói nada sozinho. Nenhum prédio fica de pé sem o engenheiro que calcula, sem o pedreiro que ergue parede, sem o servente que carrega o peso mais duro da obra todos os dias. E na política isso se repete com uma crueldade ainda maior, porque ali o crédito costuma subir e a culpa costuma descer.
Napoleão Bonaparte venceu a Europa inteira com generais que ele mesmo formou, homens como Ney e Murat, que sangraram em cada campanha ao lado dele. Quando tudo desabou em Waterloo, foram esses mesmos generais que pagaram o preço mais alto pela derrota. Ney foi fuzilado pelos Bourbon assim que a monarquia voltou ao trono, e Murat teve o mesmo fim ainda em 1815, enquanto Napoleão seguia repetindo que a culpa era do clima, dos aliados, de qualquer coisa menos dele.
Josef Stalin fez ainda pior. Subiu ao poder com o apoio de uma geração inteira de revolucionários bolcheviques e, assim que consolidou o comando, eliminou boa parte deles nos processos de Moscou, entre 1936 e 1938. Quem ajudou a construir a revolução virou inimigo do próprio Estado que ajudou a erguer.
Benito Mussolini mostra um caso mais longo e mais duro de entender. Em julho de 1943, foi o próprio Grande Conselho Fascista, formado por homens que ele mesmo escolheu ao longo de vinte anos, que votou pela sua saída e permitiu a prisão dele. Só que a história não parou ali. Resgatado pelos alemães, Mussolini montou um governo fantoche no norte da Itália e tentou sobreviver mais dois anos numa espécie de sombra do que tinha sido. O fim veio em abril de 1945, quando partisans italianos o capturaram e executaram, e o corpo foi pendurado de cabeça para baixo numa praça de Milão, a Piazzale Loreto. Entre a queda pelas mãos dos próprios aliados e a morte pelas mãos do povo, ficaram quase dois anos de isolamento crescente, sem os generais e os ministros que um dia sustentaram o regime dele.
Richard Nixon, já em outro tempo e outro continente, isolou-se tanto no comando que passou a enxergar até o próprio partido como ameaça. Quando o escândalo de Watergate veio à superfície, ele tentou empurrar a responsabilidade para assessores que só cumpriam ordens. Não funcionou. Renunciou em agosto de 1974, o único presidente americano a fazer isso até hoje, e boa parte de quem trabalhou com ele nunca mais recuperou a carreira.
Tem uma coisa que se repete em todos esses casos. O líder que separa a glória da equipe e guarda ela só pra si, mais cedo ou mais tarde, fica sozinho justo na hora em que mais precisa de gente ao lado. A frase alguém tem que pegar a culpa funciona bem quando o assunto é punição, mas quase nunca aparece quando é hora de dividir o mérito. E isso quem trabalha junto percebe rápido, mesmo sem dizer nada.
Nenhum dos quatro morreu no auge do poder. Napoleão terminou exilado numa ilha no meio do Atlântico, Mussolini foi executado pelos próprios compatriotas depois de meses isolado, Stalin morreu no cargo mas teve boa parte do seu legado desmontado por Nikita Khrushchov três anos depois, no discurso que denunciou os crimes cometidos contra a própria geração que o ajudou a chegar lá, e Nixon fechou a carreira renunciando, sozinho diante de um partido que preferiu deixá-lo cair a dividir a queda com ele.

