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    Violência contra animais que a cidade insiste em ignorar expõe limites morais, omissões do poder público e a normalização da crueldade

    Por Marcelo Oliveira
    Violência contra animais que a cidade insiste em ignorar expõe limites morais, omissões do poder público e a normalização da crueldade
    Reprodução Internet

    A violência contra animais costuma ocorrer longe da atenção pública, entretanto seus efeitos atravessam a rotina das cidades e atingem a sociedade como um todo, uma vez que revelam não apenas a fragilidade de seres indefesos, mas também as falhas persistentes na forma como lidamos com empatia, responsabilidade coletiva e respeito à vida. O caso do cachorro comunitário conhecido como Orelha se insere nesse contexto e obriga a um olhar mais atento, em vez de indiferente, sobre práticas que seguem sendo tratadas como secundárias.

    Orelha não tinha um tutor formal, no entanto era reconhecido por comerciantes, moradores e pessoas que circulavam diariamente pelo bairro, o que o tornava parte viva daquele espaço urbano. Como ocorre com tantos cães comunitários, ele sobrevivia a partir de uma rede informal de cuidado, recebendo água, comida e algum abrigo, enquanto retribuía com uma presença constante, silenciosa e afetuosa. Esses animais, embora muitas vezes invisíveis para o poder público, integram a memória cotidiana dos bairros e ajudam a construir vínculos entre as pessoas.

    Quando um animal nessas condições sofre violência, todavia, o impacto não se restringe a ele. Toda a coletividade é atingida, porque se rompe um acordo tácito de convivência baseado no respeito mínimo à vida. Maus-tratos contra animais não podem ser tratados como episódios isolados ou de menor importância, uma vez que expressam uma lógica mais ampla de banalização da dor e tolerância à brutalidade quando a vítima não é humana.

    Estudos amplamente divulgados por instituições acadêmicas e órgãos oficiais indicam que a violência contra animais costuma estar associada a outras formas de agressão, conforme for o contexto social em que ocorre. Quem agride um ser indefeso tende a apresentar dificuldades em reconhecer limites, regras e o valor da vida em sociedade. Ignorar essa relação significa deixar de enfrentar um problema estrutural que ultrapassa a esfera da proteção animal.

    O episódio envolvendo Orelha também evidencia a fragilidade dos cães comunitários diante da ausência de políticas públicas eficazes. Embora a legislação brasileira reconheça os animais como seres sencientes e criminalize os maus-tratos, a aplicação da lei ainda depende, em grande medida, da mobilização popular e do trabalho voluntário de protetores independentes. Falta fiscalização contínua, ações educativas permanentes e programas públicos que garantam castração, acompanhamento veterinário e reconhecimento formal dos cuidadores comunitários.

    Cuidar de animais em situação de rua, não se resume a um gesto individual de compaixão. Trata-se de uma questão que envolve saúde pública, educação e cidadania, uma vez que cidades que protegem seus animais tendem a ser mais organizadas, seguras e humanas. Em vez de tratar o tema como periférico, o poder público precisa incorporá-lo de forma responsável às suas prioridades.

    Orelha passa a representar, assim, um símbolo incômodo, porém necessário. Um alerta de que a violência não surge do nada e de que o silêncio também produz danos. Transformar indignação em ação concreta é o único caminho possível para evitar que histórias semelhantes se repitam. Denunciar, cobrar providências das autoridades, apoiar iniciativas de proteção animal e investir em educação para o respeito à vida são atitudes que começam no cotidiano, mas produzem efeitos duradouros.

    Que a memória de Orelha e de tantos outros animais anônimos não se limite a um registro triste. Sendo assim, que ela sirva como impulso para uma mudança real, na qual a compaixão deixe de ser exceção e passe a orientar a forma como escolhemos viver em sociedade, porque a maneira como tratamos os animais revela muito sobre quem somos e sobre o futuro que estamos dispostos a construir.

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