A estiagem tomou conta da Região Norte em julho e se firmou como o assunto de maior peso para os sete estados neste momento. Dados do Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e divulgados em 19 de agosto, mostram que o fenômeno chegou a 100% do território do Acre, 95% do Tocantins, 63% de Rondônia, 60% do Amazonas e 50% de Roraima. No Pará, o índice ficou em 28%, enquanto o Amapá seguiu sem registro de seca no mês.
O ritmo de avanço chama atenção. A área com seca no Amazonas dobrou entre junho e julho, e Roraima saltou de 7% para 50% no mesmo intervalo. Nenhuma outra pauta regional, seja política, policial ou econômica, alcança hoje tantos municípios ao mesmo tempo, porque a estiagem mexe com abastecimento de água, produção rural, transporte pelos rios e risco de queimadas de uma vez só.
O quadro do Norte acompanha uma piora que atinge o país inteiro. O Brasil registrou 4,43 milhões de quilômetros quadrados com seca, o equivalente a 52% do território nacional, e doze estados tiveram aumento da severidade do fenômeno entre junho e julho, entre eles Amazonas e Tocantins. Dezessete estados viram a área afetada crescer no período, e o Pará ficou entre os que permaneceram estáveis.
Emergência no Acre e rios em queda
A situação mais delicada aparece no Acre, onde o governo estadual decretou emergência por causa da estiagem. O decreto cita a redução expressiva dos níveis dos rios, com prejuízo à pesca artesanal, à piscicultura e às comunidades ribeirinhas, que enfrentam dificuldade de navegação, problemas na qualidade da água e custo maior para escoar a produção. Os prognósticos para agosto, setembro e outubro, segundo o Boletim Climático da Amazônia, indicam menos chuva e temperaturas mais altas.
Quem acompanha os rios da região vê o mesmo sinal. O Serviço Geológico do Brasil, que monitora os cursos d’água pelo Sistema de Alerta Hidrológico, aponta os rios Madeira e Acre como os pontos de maior vulnerabilidade neste ciclo. Só que o problema não para na calha dos grandes rios. Monitoramento do Cemaden mostra que os territórios indígenas afetados por seca severa passaram de três, em junho, para dezessete em julho, com agravamento nos distritos sanitários do Alto Rio Negro e de Parintins, no Amazonas, do Kaiapó do Pará e do Tocantins. Entre os assentamentos rurais, as áreas com seca extrema subiram de duas para 44, e Pará, Tocantins, Rondônia e Amazonas reúnem boa parte delas.
Tem ainda o fogo, que costuma andar junto com a estiagem nessa época do ano. O boletim do Painel El Niño aponta risco maior de incêndio em Rondônia, no Acre, no sul do Amazonas e no sul do Pará, com pico esperado justamente no trimestre de julho a setembro de 2026. Isso significa que os próximos sessenta dias tendem a ser os mais difíceis do ano para a região.
Desmatamento segue na direção contrária
Enquanto a seca avança, o desmatamento recua. Dados do sistema Deter, do Inpe, divulgados em 7 de agosto, mostram que a área sob avisos de desmatamento na Amazônia somou 2.874 quilômetros quadrados entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de 36% em relação ao ciclo anterior e o menor valor da série histórica. No último ano completo do governo anterior, entre 2021 e 2022, a perda tinha sido de 8.590 quilômetros quadrados, quase três vezes o número atual.
Esse recuo tem um efeito direto sobre a crise atual. Com menos floresta derrubada, sobra menos material combustível no chão, o que reduz a chance de incêndios fora de controle como os de 2023 e 2024. Ainda assim, pela urgência e pelo número de estados atingidos ao mesmo tempo, a seca ocupa hoje o primeiro lugar entre as pautas do Norte.
A próxima atualização do Monitor de Secas, com os dados de agosto, sai em setembro e vai indicar se o fenômeno continuou se espalhando pela região durante o auge do período sem chuva.
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