Chefes narcisistas não são apenas um detalhe incômodo ou uma exceção tolerável no mundo do trabalho atual, mas um sinal claro de uma cultura que ainda confunde liderança com exibicionismo, autoridade com medo silencioso e sucesso com a busca constante por validação pessoal, mesmo que isso desgaste relações, enfraqueça equipes e comprometa a continuidade das próprias organizações.
Quem já trabalhou sob esse tipo de gestão reconhece o padrão quase de imediato, porque ele se repete com pequenas variações. É o chefe que precisa ser o mais inteligente da sala, que não admite falhas, que reage mal a qualquer questionamento e que transforma conquistas coletivas em troféus individuais, enquanto o discurso, bem ensaiado, fala de equipe, comprometimento e resultados compartilhados. Na prática, porém, tudo gira ao redor do próprio ego, então, quando algo falha, alguém assume a culpa, e, quando dá certo, o mérito já tem destino definido.
Esse comportamento não surge por acaso nem pode ser explicado apenas como traço isolado de personalidade, porque ele encontra terreno fértil em um mercado cada vez mais competitivo, acelerado e focado em performance individual e resultados imediatos. Vivemos um tempo em que o líder carismático, eloquente e seguro costuma ser mais valorizado do que aquele que escuta, organiza processos, desenvolve pessoas e sustenta equipes ao longo do tempo, e assim, em muitos ambientes, quem sabe se promover avança mais rápido do que quem trabalha com consistência e constrói crescimento coletivo.
Pesquisas sobre comportamento organizacional mostram que líderes com traços narcisistas causam boa impressão no início, principalmente pela confiança e pela facilidade de comunicação, mas, com o passar do tempo, aumentam a rotatividade, reduzem o engajamento e criam ambientes emocionalmente inseguros. Estudos internacionais sobre saúde mental no trabalho apontam o ambiente profissional como fator relevante no aumento de ansiedade, depressão e esgotamento, e a presença de lideranças tóxicas aparece com frequência nesses levantamentos, o que ajuda a entender por que equipes submetidas a esse perfil tendem a adoecer de forma silenciosa e progressiva.
No cotidiano das equipes, os sinais são visíveis e difíceis de ignorar, porque metas irreais passam a ser tratadas como desafios motivadores, cobranças públicas são apresentadas como pressão saudável, decisões mudam sem explicação consistente, o favoritismo se instala de forma seletiva e o clima permanece em estado constante de tensão. Aos poucos, o medo vira ferramenta de gestão, e as pessoas começam a medir cada palavra, esconder erros e trabalhar mais para se proteger do que para criar ou melhorar processos, o que altera a dinâmica do trabalho de maneira profunda.
As consequências não se limitam a casos isolados de desgaste, porque ambientes conduzidos por chefes narcisistas se deterioram como sistema. A inovação diminui, já que errar se torna arriscado, a cooperação enfraquece, pois todos disputam reconhecimento, e profissionais mais experientes tendem a buscar outros caminhos, enquanto permanecem aqueles que se adaptam ao jogo ou não encontram alternativa imediata. Com isso, a organização perde talento, memória e confiança interna, muitas vezes percebendo o problema apenas quando o prejuízo já está instalado.
É preciso diferenciar firmeza de autoritarismo e autoconfiança de vaidade exagerada, porque liderar envolve pressão e decisões difíceis, mas também exige escuta, equilíbrio e responsabilidade com as pessoas. Em alguns ambientes, começam a surgir práticas mais consistentes de avaliação de liderança, cultura de feedback e desenvolvimento humano que vão além do discurso, o que indica uma tentativa de ajustar rumos e redefinir o que se entende por liderança.
Diante disso, fica a reflexão sobre o tipo de ambiente que estamos naturalizando nas organizações, se é um espaço de crescimento conjunto e construção compartilhada ou um palco permanente para egos que ocupam o centro de tudo, enquanto a equipe tenta se manter de pé em silêncio




Comentários do Facebook