Historicamente, o vinho ocupou um pedestal de exclusividade no universo das bebidas, sustentado por um léxico complexo e uma aura de intelectualidade que transformava o simples ato de beber em um exercício analítico. Contudo, essa fronteira está se dissipando. Nos últimos anos, observamos um fenômeno de transposição de linguagem, onde o mercado global de bebidas — abrangendo desde cafés especiais até destilados de cana — passou a adotar o rigor técnico e o storytelling da vitivinicultura para agregar valor e autoridade aos seus produtos. Essa ‘sommelierização’ não é apenas um artifício de marketing, mas uma resposta direta a um consumidor cada vez mais educado, que exige transparência sobre a origem, os processos fermentativos e o perfil sensorial do que consome.
A transposição do vocabulário sensorial é o pilar mais visível dessa mudança. Termos como ‘corpo’, ‘acidez málica’, ‘adstringência’ e ‘retrogosto prolongado’, antes restritos às degustações de uvas nobres, tornaram-se ferramentas fundamentais para os baristas de cafés especiais e mestres cervejeiros. No segmento de cafés, por exemplo, a classificação por notas de pontuação da SCA (Specialty Coffee Association) mimetiza o sistema de Parker para vinhos, detalhando notas de frutas vermelhas, florais e níveis de oxidação. Já no universo das cervejas artesanais, estilos como as Wild Ales e as Lambics são comercializados com o mesmo status de vinhos de guarda, enfatizando a complexidade gerada por leveduras selvagens e o envelhecimento em barris de carvalho, onde a percepção de taninos e a estrutura ácida são os novos protagonistas da mesa.
O conceito de ‘terroir’ — a tríade indissociável entre solo, clima e intervenção humana — encontrou no Brasil um campo fértil para a ressignificação de produtos nativos. A cachaça de alambique é o exemplo mais emblemático dessa evolução, com diversas regiões buscando Indicações Geográficas (IG) que atestam a influência do ecossistema local na cana-de-açúcar e na fermentação. Paralelamente, surge o inovador ‘vinho de açaí’ ou açaí fermentado, que utiliza métodos de vinificação clássica em frutos amazônicos para criar bebidas secas, complexas e ricas em antocianinas. Esses produtos utilizam a narrativa da terra para se distanciar das commodities e se posicionar em gôndolas de luxo, provando que o terroir não é exclusividade das Vitis vinifera, mas uma característica inerente a qualquer matéria-prima de alta qualidade.
O cenário macroeconômico de 2024 e as projeções para 2025 apontam para a consolidação da tendência de ‘premiumização’. No Brasil, o comportamento do consumidor migrou para a lógica do ‘beber menos, mas beber melhor’. O aumento do custo de vida e a busca por bem-estar reduziram o volume de consumo ocasional, mas elevaram o gasto médio por unidade. O cliente prefere investir em uma única garrafa de gin artesanal destilado com botânicos locais ou em uma cerveja ‘single hop’ do que em grandes volumes de bebidas industriais. Essa sofisticação da demanda força as marcas a adotarem uma comunicação mais densa e informativa, onde o rótulo deixa de ser apenas um identificador para se tornar um guia técnico de degustação.
Até mesmo o segmento de bebidas não alcoólicas — os chamados ‘mocktails’ e infusões premium — está capitulando à estética e ao storytelling das vinícolas. Marcas de águas tônicas artesanais, kombuchas envelhecidas e sucos varietais de uvas específicas estão utilizando garrafas de formato borgonhesa, rótulos minimalistas e descrições de safras para atrair o público que busca sofisticação sem o consumo de álcool. A ideia é replicar a ‘experiência da taça’: o ritual de servir, observar a coloração, girar a bebida para liberar aromas e analisar a persistência no paladar. Essa abordagem eleva o status de bebidas cotidianas a itens de gastronomia fina, permitindo que consumidores abstêmios ou em momentos de moderação participem do mesmo ritual social que os entusiastas do vinho.
Em última análise, a convergência entre os diferentes mercados de bebidas e a linguagem do vinho reflete uma democratização do conhecimento sensorial. O que antes era visto como um jargão elitista hoje funciona como uma ponte de comunicação entre o produtor e o consumidor final, estabelecendo padrões de qualidade que elevam a régua de toda a indústria. Para 2025, o desafio das marcas brasileiras será manter essa autenticidade, evitando que a linguagem técnica se torne um clichê vazio e garantindo que a complexidade prometida no rótulo seja, de fato, entregue no primeiro gole. A era do consumo consciente e educado chegou para ficar, transformando cada copo em um campo de exploração cultural e técnica.
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