A Espanha vive uma grave crise habitacional que ganhou ainda mais visibilidade após o caso da aposentada Maricarmen Abascal, de 87 anos, retirada de maca do apartamento em Madri onde viveu por sete décadas. O episódio mobilizou o país e levou milhares de pessoas às ruas no sábado (3), exigindo mais proteção aos inquilinos. O governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou medidas emergenciais, incluindo a suspensão de determinados despejos até 2030, mas as mudanças não foram aprovadas no Congresso.
O paradoxo espanhol chama atenção. Entre 1997 e 2008, o país construiu cerca de cinco milhões de residências, o dobro da demanda da época. A crise financeira global, desencadeada pela falência do banco Lehman Brothers, estourou a bolha imobiliária, devastou o setor de construção civil e reduziu drasticamente o ritmo de obras. Hoje, a Espanha edifice apenas 90 mil residências por ano, ante uma taxa de quase 14 unidades para cada mil habitantes no auge da bolha. O resultado é um déficit de cerca de 750 mil moradias, número que pode superar um milhão nos próximos dois anos, segundo o Banco da Espanha.
Enquanto a oferta não se recupera, a demanda cresceu. Desde 2021, o país registra a formação de 250 mil novos lares por ano, puxada principalmente pela imigração de colombianos e venezuelanos. Desde 2015, os preços de venda e aluguel subiram 80%, enquanto os salários avançaram apenas 30%, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha. Em algumas cidades, o aluguel médio equivale a 98,7% do salário médio dos jovens. Atualmente, 47,3% dos espanhóis entre 26 e 34 anos ainda moram com os pais, citando a impossibilidade financeira de arcar com moradia própria.
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