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Entre cliques e algoritmos: o que a mídia digital está fazendo com a criatividade humana

No entanto, quando se trata de criatividade, o cenário contemporâneo impõe um desafio mais complexo, especialmente diante da crescente mediação tecnológica da informação e da produção cultural.
Entre cliques e algoritmos: o que a mídia digital está fazendo com a criatividade humana
(Imagem: Gerd Altmann/Pixabay)

A evolução humana sempre respondeu às condições do ambiente e às necessidades de sobrevivência. Habilidades deixam de ser centrais quando o contexto muda.

A Inteligência Artificial é capaz de gerar textos, imagens e vídeos em segundos, com resultados tecnicamente impressionantes. Ainda assim, sua produção carece de elementos fundamentais da criação humana: vivência, intenção, memória e experiência subjetiva. A IA organiza padrões, mas não narra histórias pessoais nem elabora sentidos a partir da experiência vivida, algo essencial à arte, ao jornalismo e à reflexão crítica.

No ambiente midiático atual, marcado pela velocidade, pela abundância de conteúdo e pela lógica do engajamento, a facilidade tecnológica tende a substituir o esforço criativo e interpretativo. Criar, escrever, imaginar e resolver problemas são atividades que estimulam o pensamento crítico, a memória e a autonomia intelectual. Quando o consumo de informação se torna predominantemente passivo, há um empobrecimento gradual dessas capacidades.

Esse processo afeta diretamente a relação do público com a mídia. A predominância de vídeos curtos, respostas prontas e conteúdos altamente simplificados reduz o espaço para leitura atenta, reflexão e complexidade. A leitura exige tempo, concentração e imaginação, qualidades cada vez menos estimuladas em um ecossistema informacional orientado pela rapidez e pelo impacto imediato.

Não se trata de rejeitar a tecnologia ou a Inteligência Artificial, mas de reconhecer seus limites. Quando utilizadas de forma crítica, essas ferramentas podem ampliar possibilidades criativas e informativas. O problema surge quando passam a substituir o esforço intelectual, e não a complementá-lo. Nesse cenário, o jornalismo corre o risco de perder densidade, nuance e capacidade de mediação crítica da realidade.

A história mostra que mudanças culturais não eliminam completamente práticas anteriores, mas as transformam em nichos. A leitura aprofundada, a escrita autoral e as formas tradicionais de criação podem se tornar menos frequentes, porém mais valiosas. Cabe à mídia, à educação e ao próprio jornalismo preservar espaços de complexidade em meio à lógica algorítmica.

O desafio central é encontrar equilíbrio: integrar tecnologia sem abdicar do pensamento crítico. Caso contrário, corremos o risco de formar não apenas consumidores passivos de conteúdo, mas uma cultura informacional cada vez menos criativa, menos reflexiva e mais dependente de soluções automáticas. A criatividade humana, apesar de desafiada, permanece insubstituível, e sua preservação é também uma responsabilidade da mídia contemporânea.

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Suzy Azevedo é jornalista formada, pós-graduada em Comunicação Informacional, e autora de textos reflexivos sobre mídia, comportamento humano e questões sociais. Escreve sobre temas que impactam a forma como as pessoas pensam, se informam e se relacionam com o mundo.

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