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O hábito dos canalhas: quando a mão estendida encontra a lâmina da traição

Leitura e reflexão a partir da coluna de Cícero Moura
O hábito dos canalhas: quando a mão estendida encontra a lâmina da traição
Reprodução Internet

Há comportamentos que atravessam épocas como vícios morais incólumes, reaparecendo sempre que alguém aceita auxílio, prospera sustentado pela confiança alheia e, ao alcançar posição confortável, converte gratidão em traição, gesto que não brota do improviso, mas de uma escolha consciente, fria e calculada, própria de quem transforma relações humanas em instrumentos descartáveis de ascensão.

A coluna de Cícero Moura ilumina esse fenômeno com precisão incômoda, ao evidenciar que não se trata de simples ingratidão episódica, mas de uma deformidade ética mais profunda, reveladora de indivíduos incapazes de construir vínculos genuínos, para os quais a lealdade é apenas uma etapa provisória e a confiança, um recurso a ser explorado até o limite de sua utilidade.

Não por acaso, a literatura universal sempre reservou ao traidor o espaço do desprezo absoluto, pois desde cedo compreendeu que a traição não corrói apenas relações individuais, mas atinge o próprio alicerce da vida coletiva, razão pela qual Dante Alighieri relegou os traidores ao círculo mais profundo do inferno e William Shakespeare eternizou, em Júlio César, o espanto dilacerante de quem percebe que o golpe fatal não vem do inimigo declarado, mas daquele que caminhava ao seu lado.

A história brasileira, como bem observa Cícero Moura, repete esse padrão com desconfortável frequência, sendo o episódio da Inconfidência Mineira um dos exemplos mais paradigmáticos, quando Joaquim Silvério dos Reis, íntimo dos conspiradores e plenamente ciente de seus propósitos, optou por denunciá-los em troca de benefícios pessoais, assegurando para si vantagens imediatas e um lugar definitivo na memória nacional como sinônimo de traição movida por interesse próprio.

Esse mesmo roteiro se reproduz, de forma menos épica, porém igualmente reveladora, na trajetória política do país, marcada por alianças construídas sob discursos solenes de fidelidade e desfeitas com rapidez cirúrgica diante da primeira mudança de conveniência, expondo personagens que ascendem amparados por padrinhos influentes e, ao conquistarem protagonismo, passam a trabalhar para neutralizar ou eliminar aqueles que lhes abriram o caminho.

O traidor, como aponta o colunista, raramente foge a um script previsível, pois se aproxima com humildade estratégica, simula lealdade, aceita proteção, usufrui de oportunidades e, quando atinge posição confortável, passa a enxergar o antigo aliado como obstáculo, momento em que a traição deixa de ser hipótese e se consolida como decisão racional, tomada sem remorso.

Sob o prisma psicológico, trata-se de indivíduos marcados por oportunismo estrutural e baixa capacidade de empatia, que confundem astúcia com inteligência e acreditam que o êxito alcançado absolve o método empregado, ignorando que a história raramente concede absolvição a quem constrói sua trajetória sobre a deslealdade.

Como bem ressalta Cícero Moura, o traidor pode até alcançar ganhos imediatos, cargos, prestígio ou poder momentâneo, contudo carrega consigo uma marca indelével, a desconfiança, pois quem trai uma vez revela ao mundo sua disposição para trair novamente, tornando qualquer vitória frágil, instável e sustentada não pelo respeito, mas pelo medo ou pelo interesse circunstancial.

Cabe também à sociedade refletir sobre o quanto normaliza esse comportamento, já que quando o oportunismo é celebrado como sagacidade e a traição passa a ser tratada como habilidade política ou social, abre-se espaço para a banalização da canalhice, processo no qual a confiança, base invisível das relações humanas e institucionais, começa a se esfarelar lentamente.

Ser leal, convém sublinhar, não é sinônimo de ingenuidade, mas de escolha ética, e a história demonstra, de forma reiterada, que projetos coletivos, instituições e até civilizações prosperam quando a confiança é preservada e desmoronam quando a traição se converte em regra tácita.

Os canalhas sempre existirão, transitando entre discursos eloquentes e gestos cuidadosamente ensaiados, contudo o tempo, juiz silencioso e inexorável, costuma colocar cada personagem no lugar que merece, lembrando que quem constrói sua ascensão sobre a traição acaba erguendo degraus sobre um vazio moral que, mais cedo ou mais tarde, cobra seu preço.

Texto baseado na Coluna Espaço Aberto do Jornalista Cícero Moura

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