A comunicação acompanha a humanidade desde suas primeiras formas de organização social e permanece como um dos principais meios de aproximação entre as pessoas. A tradição bíblica também atribui valor central à palavra ao afirmar que o Verbo se fez carne e habitou entre os homens, em referência a Jesus Cristo. A passagem apresenta a palavra como presença concreta e instrumento de transformação, capaz de orientar escolhas, provocar rupturas e interferir diretamente na vida de indivíduos e nações.
Muita gente chegou longe pelo poder de falar bem. Silvio Santos, apresentador gravado na memória afetiva do Brasil, começou vendendo canetas na rua e terminou dono de uma rede de televisão. A trajetória dele é um dos casos mais citados por quem acredita no poder da palavra. E com razão. Só que existe um ditado que resume bem o limite desse poder, as palavras convencem, mas o exemplo arrasta. É curto, mas diz muita coisa.
Quando alguém comunica e vive o que comunica, isso constrói algo que vale mais do que qualquer discurso bem montado. A credibilidade. Não importa de que lado a pessoa esteja, quem une fala e atitude carrega uma característica que os que apenas falam nunca conseguem imitar de verdade. É uma combinação rara, e justamente por isso é tão poderosa. A gente reconhece quando encontra. E sente falta quando não encontra.
Na política, essa lógica funciona de outro jeito. Muita falácia, pouca ação de verdade. Mas o jogo é esse, e sempre teve quem comprasse esses discursos. A velha lógica do me ajuda que eu te ajudo nunca foi funda o suficiente para transformar muita coisa, só o bastante para manter as coisas como estão. A história está cheia de exemplos assim, em tempos e lugares diferentes, e o padrão se repete com uma regularidade que chega a ser quase previsível.
Há quem queira voltar à política nessa mesma toada, sem grandes mudanças. O ex-deputado federal e ex-prefeito de Porto Velho, Dr. Mauro Nazif, do Republicanos, é um desses casos. Ele planeja um retorno, mas carrega um histórico que pesa. A gestão à frente da prefeitura foi marcada por limitações que custaram caro, e o resultado mais concreto disso foi a derrota na tentativa de reeleição. Além disso, ficou muito tempo afastado do primeiro plano. Seu principal reduto eleitoral, os servidores públicos, já tem outros nomes no horizonte, nomes que aproveitaram o vácuo deixado por ele para se firmar. Sem investimento político pesado e sem uma narrativa nova, a tarefa parece difícil. Mas em política, como se sabe, nada está definido antes da hora.
E por falar em jogo político, vale entender como parte desse jogo funciona por baixo dos panos. A compra de votos segue uma lógica própria, discreta e móvel. Geralmente, funciona assim, pessoas de confiança do candidato ou da campanha saem com quantias consideráveis em dinheiro e repassam esse valor a lideranças menores, que por sua vez organizam o pagamento de pessoas contratadas para mobilizar eleitores. O sistema nunca é fixo num ponto só. Ele circula, muda de endereço, e é exatamente essa mobilidade que dificulta a ação dos órgãos de controle, porque onde não há rastro visível, a fiscalização chega tarde ou não chega.
A Polícia Federal, o Tribunal Regional Eleitoral e o Ministério Público dependem, em grande parte, de denúncias anônimas para abrir investigações. Sem denúncia, não há o que apurar. E o efetivo disponível, na maioria dos casos, não dá conta do volume de ocorrências que surgem no período eleitoral. Isso não é segredo. É uma limitação estrutural conhecida por quem opera dentro e fora da lei.
A moeda de troca mais comum nesse tipo de operação já foi, por muito tempo, combustível. Gasolina, diesel ou álcool, produtos que fazem os veículos de campanha andarem e que, antigamente, podiam ser fornecidos por meio de requisição com nota fiscal e contrato de prestação de serviço. Era uma forma de dar aparência legal a algo que, na prática, servia para remunerar militantes. Com o tempo, as formas foram mudando. Com o avanço das tecnologias, começa a se especular sobre o uso de códigos de barras, identificação por placa de veículo ou até reconhecimento facial como meios de controle e distribuição. São hipóteses ainda em aberto, mas que mostram como o esquema tende a se adaptar ao ambiente disponível.
Quem já esteve dentro de uma campanha sabe que a organização é um mundo à parte. Cada eleição tem sua peculiaridade. Não existe eleição igual, mas o que não muda é a experiência acumulada de quem já passou por isso antes. Candidatos estreantes enfrentam dificuldades reais porque campanha eleitoral é cheia de detalhes que, feitos sem cuidado, geram consequências sérias. Vazamento de informações estratégicas, prestações de contas rejeitadas pelo TRE, gastos imprevistos com advogados e contadores, e o risco concreto de perder a eleição por erros que poderiam ter sido evitados. A expertise, nesse campo, não é detalhe. Ela é o que separa campanhas que chegam ao fim funcionando das que tropeçam antes do segundo turno.
Rosinaldo Pires é contabilista e jornalista, e está cursando Direito na Faculdade Metropolitana.
Participe da nossa comunidade!
Clique aqui para entrar no grupo do WhatsApp

















