Quando a fome vira burocracia, o problema deixa de ser técnico e passa a ser moral

A negligência no atendimento do CadÚnico em Porto Velho expõe um sistema que empurra os mais pobres para o desespero
Quando a fome vira burocracia, o problema deixa de ser técnico e passa a ser moral
Reprodução Internet

Antes de qualquer discussão técnica, administrativa ou legal, é necessário partir de um ponto básico. Política social só faz sentido quando é guiada pela empatia. Quando o Estado falha em algo tão elementar quanto garantir a renovação de um benefício social, o problema deixa de ser um erro pontual de sistema e passa a atingir diretamente a sobrevivência de pessoas reais. Nesse contexto, não se trata apenas de um cadastro atrasado, mas da comida do dia seguinte, do aluguel que vence, da conta de luz acumulada e da dignidade de milhares de famílias que vivem permanentemente no limite.

Foi exatamente esse cenário que chegou à Revista Deixa Eu Te Falar, por meio de uma denúncia grave sobre o atendimento prestado no processo de atualização do Cadastro Único em Porto Velho. Segundo os relatos recebidos, a situação se repete de forma quase automática e previsível. Pessoas chegam ainda de madrugada ao CRAS, enfrentam filas longas, aguardam por horas e, ao final, recebem a mesma resposta de sempre, informando que a senha para atendimento já acabou. São poucos atendimentos pela manhã, alguns à tarde e, a partir daí, resta apenas voltar outro dia ou procurar outra unidade, muitas vezes sem qualquer garantia de que o problema será resolvido.

Além disso, o problema não se encerra na limitação diária de atendimentos. Segundo servidores do próprio CRAS, o procedimento adotado atualmente exige que o beneficiário aguarde em casa uma visita técnica para atualização do cadastro. Ocorre que essa visita, na prática, raramente acontece. Um servidor estatutário relatou que há pessoas aguardando há mais de um ano, algumas há ainda mais tempo, sem qualquer retorno ou previsão. Enquanto isso, o benefício é bloqueado, deixando famílias inteiras sem sua principal ou única fonte de renda.

Diante dessa realidade, a questão deixa de ser meramente administrativa e passa a ser profundamente humana. O que essas pessoas vão comer amanhã quando o benefício é bloqueado. Como pagar o aluguel. Como manter o básico dentro de casa. Para quem depende exclusivamente desse recurso para sobreviver, o bloqueio não representa um detalhe burocrático, mas uma ruptura direta com o mínimo necessário para viver com dignidade, ampliando o sofrimento de quem já enfrenta inúmeras dificuldades.

Do ponto de vista legal, a situação também se mostra grave. A Constituição Federal garante o direito à assistência social a quem dela necessitar, e o CadÚnico não é um favor concedido pelo Estado, mas um instrumento formal de política pública. Quando o poder público cria obstáculos sistemáticos, limita atendimentos sem justificativa razoável ou impõe procedimentos que não executa, surgem indícios claros de omissão administrativa e de violação de direitos fundamentais, especialmente quando os prejuízos recaem sobre a população mais vulnerável.

Nesse contexto, a iniciativa da Revista Deixa Eu Te Falar de colher assinaturas para uma ação civil pública se mostra legítima e necessária. A medida pode obrigar o poder público a regularizar o atendimento, estabelecer prazos razoáveis e garantir que nenhum beneficiário fique sem renda por falhas do sistema. Gestores podem, sim, responder por seus atos e omissões, inclusive com responsabilização pessoal, caso fique comprovada negligência grave no cumprimento de suas atribuições.

Não por acaso, servidores ouvidos pela reportagem são diretos em suas avaliações. Segundo eles, não adianta insistir apenas em matérias ou reclamações internas. O caminho indicado é procurar o Ministério Público de Rondônia ou a Defensoria Pública do Estado de Rondônia, pois quando o Estado deixa de ouvir o cidadão, o sistema de Justiça passa a ser a última porta possível para garantir direitos básicos.

Nada disso pode ser tratado como caso isolado. Trata-se de um problema estrutural, que se repete e se perpetua ao longo do tempo. É o retrato de uma política pública que existe no papel, mas falha na ponta, justamente onde deveria ser mais humana. Falta pessoal, falta organização, falta prioridade e, sobretudo, falta respeito com quem já vive no limite da sobrevivência.

Cansa repetir o óbvio, mas é necessário insistir. A pobreza não espera, a fome não aguarda senha e a dignidade não pode ficar em fila. Se o Estado não for capaz de compreender isso, a sociedade terá de cobrar de forma coletiva e organizada, seja no papel, na rua ou no Judiciário. Porque quando a burocracia ignora a realidade concreta das pessoas, ela deixa de ser neutra e passa a ser cruel.

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