Em ano eleitoral, os governos deixam de ter margem para empurrar problemas históricos com a barriga. Pautas sensíveis voltam à mesa com força e exigem decisões que, no passado, ficaram pelo caminho. Na Amazônia, a disputa por terras reaparece como um desses temas incômodos, diretamente ligada ao modelo de ocupação que se arrasta desde o período colonial.
Em Rondônia, 2025 foi marcado por ações duras de órgãos de controle ambiental. No município de Candeias do Jamari, famílias que ocupavam uma área de preservação ambiental tiveram de deixar o local às pressas. Muitos estavam ali havia anos. Ainda assim, a operação não abriu espaço para diálogo ou alternativas imediatas de reassentamento.
Outro caso de grande repercussão envolve centenas de famílias que vivem dentro da Estação Ecológica Soldado da Borracha, em áreas que alcançam Porto Velho, Cujubim e o distrito de Jaci-Paraná. O impasse chegou ao Supremo Tribunal Federal, que deve decidir sobre o tema a qualquer momento. Essas mesmas regiões lideraram, em 2024, o ranking de queimadas no estado, o que reforça a complexidade do conflito entre preservação ambiental e ocupação humana.
Além disso, não passa despercebida a situação vivida por garimpeiros em Humaitá, município do Amazonas que faz fronteira com Rondônia. Durante uma operação da Polícia Federal, com apoio do Ibama, mais de cem dragas foram destruídas, assim como balsas e equipamentos usados na extração de ouro. A ação gerou impacto imediato na economia local e reacendeu o debate sobre alternativas para quem depende da atividade para sobreviver.
A disputa por terras e riquezas na Amazônia não é recente. Em 1731, garimpeiros vindos de Cuiabá avançaram para o Vale do Guaporé, na região de Costa Marques, atraídos pelo ouro. Em 1750, o Tratado de Madri consolidou a ocupação portuguesa sobre a Amazônia. Décadas depois, a extração da borracha, da madeira, do ouro e das castanhas intensificou a presença estrangeira e impulsionou a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que operou entre 1912 e 1972.
Passados mais de 500 anos desde as disputas entre portugueses e espanhóis, o conflito pela terra continua moldando o cotidiano da região. Hoje, ele pressiona gestores públicos que, gostem ou não, terão de enfrentar o tema antes que o calendário eleitoral imponha silêncio. Não basta decidir nos gabinetes. Será preciso explicar as escolhas à população, olho no olho, nas urnas.
Com base no texto do Jornalista e Bacharel em Direito Marcelo Freire
Fonte: Valor&MercadoRO
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