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Denúncia sobre prova da Câmara de Porto Velho levanta dúvidas graves sobre impessoalidade e respeito aos candidatos

Mais de 15 mil candidatos cobram esclarecimentos após questão citar agente político em atividade e surgirem relatos de falhas graves na aplicação da prova
Denúncia sobre prova da Câmara de Porto Velho levanta dúvidas graves sobre impessoalidade e respeito aos candidatos
Reprodução Internet

Mais de 15 mil pessoas se prepararam durante meses, algumas durante anos, abriram mão de tempo, recursos e tranquilidade, pagaram inscrição e confiaram que estavam participando de um concurso público regido por critérios técnicos, neutros e rigorosamente impessoais, como exige a lei e como a própria ideia de serviço público pressupõe. No entanto, o que emergiu após a aplicação da prova da Câmara Municipal de Porto Velho está longe dessa expectativa e, por conseguinte, abriu um flanco delicado que não pode ser tratado com desdém ou silêncio administrativo.

A polêmica gira em torno da questão nº 9 do certame, elaborado pela banca Instituto Brasileiro de Gestão e Pesquisa, na qual aparece, de forma explícita, o nome de um secretário municipal da atual gestão, figura pública que, além disso, já se movimenta como pré-candidato nas eleições de 2026. Ainda que o conteúdo da questão possa, em tese, dialogar com temas da administração pública, vale ressaltar que a inserção nominal de um agente político em plena atividade extrapola o campo pedagógico e invade uma zona cinzenta, onde a linha entre avaliação técnica e promoção pessoal se torna perigosamente tênue.

Sob essa perspectiva, não se trata de uma coincidência trivial nem de um detalhe irrelevante, mas de um episódio que tensiona diretamente o princípio da impessoalidade, um dos pilares que sustentam a administração pública brasileira, justamente porque concursos não são, nem jamais deveriam ser, espaços de projeção simbólica ou de fixação de nomes na memória coletiva de milhares de candidatos. A prova existe para medir conhecimento, não para reforçar capital político, ainda que de maneira indireta, sutil ou disfarçada de normalidade.

Como se não bastasse essa questão central, multiplicam-se relatos de irregularidades logísticas que aprofundam o desconforto e alimentam a desconfiança, entre eles salas com falta de provas, envelopes supostamente abertos, candidatos sem documentação adequada e ausência de conferência formal na entrada, um conjunto de falhas que, quando analisado em bloco, revela um ambiente organizacional frágil e incompatível com a seriedade exigida de um concurso dessa dimensão. Em contrapartida, a banca e os responsáveis pelo certame ainda não ofereceram esclarecimentos públicos à altura da gravidade das denúncias, o que, inevitavelmente, amplia o ruído e fragiliza a credibilidade do processo.

Não surpreende, portanto, que a reação popular tenha sido imediata e intensa, com manifestações nas redes sociais cobrando apuração rigorosa, responsabilização e, sobretudo, respeito aos milhares de candidatos que acreditaram na lisura do certame. É imperativo notar que a confiança em concursos públicos não é um detalhe burocrático, mas um elemento estruturante da ideia de meritocracia e igualdade de acesso ao serviço público, de modo que qualquer fissura nesse pacto simbólico produz efeitos profundos e duradouros.

Diante disso, o mínimo que se espera é a atuação firme dos órgãos de controle e fiscalização, com investigação transparente, técnica e célere, capaz de esclarecer se houve erro, negligência ou algo mais grave, pois somente a luz dos fatos, expostos com clareza, pode restaurar a confiança abalada. Em suma, mais de 15 mil pessoas não pedem privilégios nem favores, pedem apenas aquilo que a lei já garante, um concurso público justo, impessoal e incólume de interesses políticos, porque quando a prova vira palanque, quem perde não é apenas o candidato, mas a própria ideia de serviço público.

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