O crescimento das casas de apostas online no Brasil criou um mercado bilionário em poucos anos, e parte desse universo passou a aparecer em investigações que apuram movimentação financeira do crime organizado. Polícia Federal, Ministérios Públicos estaduais e órgãos de inteligência financeira já abriram dezenas de procedimentos sobre o tema, e em vários deles surge o nome do Primeiro Comando da Capital. Um levantamento identificou ao menos 80 investigações contra sites e empresas de apostas online em andamento no país, e parte dessas plataformas teria virado instrumento de facções como o PCC e o Comando Vermelho para lavar dinheiro e arrecadar recursos.
A lógica apontada pelos investigadores não está na exploração da aposta em si, mas no volume de dinheiro que essas estruturas conseguem movimentar todos os dias. Em uma das investigações, no Rio de Janeiro, o Ministério Público estadual mapeou bicheiros que ampliaram seus negócios com as bets, criando sites de aposta dentro e fora do Brasil, e em um dos casos a polícia interceptou mensagem em que membros da organização confirmavam a criação de uma bet em Curaçao. O mecanismo é quase sempre o mesmo, e funciona porque é difícil de rastrear. Segundo as investigações, o dinheiro sujo entrava como apostas nos sites e saía mascarado como prêmios lícitos, concedidos a integrantes da organização criminosa.
Rondônia, aliás, aparece como uma das origens dessa frente investigativa. Uma apuração no estado, iniciada há pelo menos três anos, passou a investigar criminosos ligados a bets e jogos online em pelo menos oito estados brasileiros, com a suspeita de que um dos sites, chamado Rondo Esportes, fazia a lavagem de dinheiro do tráfico de maconha e de cocaína. Foi a partir desse tipo de caso que a participação das facções no mercado de apostas deixou de sair do radar policial.
O caso de maior repercussão, porém, não envolveu apenas bets. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 pelo Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal, revelou um esquema que movimentou R$ 52 bilhões por meio de postos de combustíveis ligados à facção, usando fintechs como bancos paralelos para dificultar o rastreamento financeiro. Durante a operação, as investigações descobriram que o PCC tinha R$ 30 bilhões investidos em 40 fundos geridos por fintechs da avenida Faria Lima, em São Paulo, considerada o coração do mercado financeiro brasileiro. O dinheiro circulava e depois reaparecia transformado em patrimônio. Entre os bens adquiridos com recursos de origem ilícita estão 1.600 caminhões, quatro usinas produtoras de álcool, um terminal portuário, mais de 100 imóveis, seis fazendas no interior de São Paulo e uma residência avaliada em R$ 13 milhões em Trancoso, na Bahia.
O esquema não parou depois da primeira ofensiva. Em maio de 2026, o Ministério Público de São Paulo, por meio do Gaeco, e a Receita Federal deflagraram a Operação Fluxo Oculto, desdobramento da Carbono Oculto, que identificou seis novas fintechs atuando como bancos paralelos para o crime organizado depois que as anteriores foram bloqueadas ou liquidadas. A nova etapa mirou o desvio de nafta, solvente petroquímico usado ilegalmente na adulteração de gasolina, com indícios de mais de 135 milhões de litros desviados em pouco mais de dois anos, e a produtora Petrodansk apareceu como uma das principais investigadas, com mais de 10 mil notas fiscais falsas que somariam R$ 1,49 bilhão.
No setor de apostas propriamente dito, nomes específicos já foram citados em apurações recentes. Uma investigação da revista piauí apontou possíveis conexões entre o PCC e a B3T4 International Group, controladora das plataformas Bet4, Aposta Bet e Faz o Bet, empresa registrada em uma sala de 28 metros quadrados em um edifício na Avenida Paulista que funciona como coworking, e que, segundo o MP-SP, dividia endereço com companhias ligadas ao empresário Mohamad Hussein Mourad, acusado de chefiar um esquema bilionário de lavagem de dinheiro da facção. A defesa de Mourad negou todas as acusações, e o advogado dos sócios da B3T4 pediu respeito à privacidade.
Outro caso chegou ao mundo do entretenimento e das redes. A Polícia Federal abriu inquérito que investiga a influenciadora Virginia Fonseca por lavagem de dinheiro, examinando a relação entre empresas do seu grupo, a processadora de pagamentos Amp Pay e plataformas de apostas, com base em documentos acumulados pela CPI das Bets. O ponto mais delicado dessa apuração envolve uma cadeia de ligações societárias, já que sócios de Virginia na WePink foram antes donos da Pink Lash em parceria com Karen Mori, conhecida como Japa do PCC, viúva de um dos líderes da facção assassinado em 2018.
Há ainda casos que conectam diretamente patrocínio esportivo e facção. Casas de apostas regularizadas, entre as maiores do país, firmaram parceria para atrair novos apostadores com a Blackbox, empresa do Espírito Santo apontada pela Polícia Federal como parte da infraestrutura financeira do esquema que resultou na prisão do MC Ryan SP, suspeito de ligação com o PCC, e cujos sócios também foram presos na Operação Narco Fluxo. A empresa afirmou, por meio de advogado, que os contratos com bets são regulares e que o negócio firmado com o funkeiro não tem ligação com esquema criminoso.
A regulamentação do setor, conduzida pelo governo federal, surgiu em parte como resposta a esse risco, e trouxe exigências como identificação de usuários, monitoramento de transações, comunicação de operações suspeitas e controle sobre quais empresas podem operar no mercado brasileiro. Só que boa parte do problema mora fora do sistema regulado. Dados da consultoria H2 Gambling Capital, citados pela Folha de S.Paulo, mostram que os cassinos online representam 60% do faturamento das casas de apostas no Brasil, e no mercado ilegal essa fatia sobe para 72% de um universo que movimentou R$ 14 bilhões em 2025.
O alcance da facção sobre esses setores aparece também em estudos. Um levantamento divulgado em junho de 2025 pelo grupo Esfera em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que PCC e Comando Vermelho têm usado fintechs, bets e criptoativos como mecanismos para lavar dinheiro e expandir seu capital financeiro. As investigações seguem em andamento em diferentes estados, e até aqui as autoridades não tratam o setor de apostas como um todo como ligado à facção, mas sim empresas, pessoas e estruturas específicas que teriam sido usadas para movimentação irregular.
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