Nos bastidores do Palácio Rio Madeira, sede do governo de Rondônia, corre uma articulação que ajuda a explicar por que o PSD, partido do governador Marcos Rocha, aparece mais fraco do que poderia nesta corrida por vagas na Assembleia Legislativa. A nominata do partido foi montada para garantir só dois nomes com chance real de eleição, e isso abre espaço para que outras legendas ligadas ao Palácio cresçam na Casa. Por trás dessa engenharia eleitoral está um objetivo maior, que é assegurar governabilidade não só para o restante do mandato de Rocha, mas também para o pré candidato a governador Adailton Furia, apontado como sucessor natural do projeto político em curso.
Dois nomes que já parecem garantidos
Os deputados Laerte Gomes e Cássio Gois ocupam hoje as posições mais seguras da lista do PSD. Quase qualquer composição final da nominata mantém a dupla na Assembleia Legislativa de Rondônia, porque os dois já chegam com base eleitoral consolidada em suas regiões e histórico de votação que dificilmente oscila de uma eleição para outra. O problema aparece na hora de pensar numa terceira cadeira, e é aí que a engenharia da lista começa a pesar.
Para entender o tamanho da manobra, vale explicar como funciona a conta. Um partido só elege deputados estaduais em Rondônia se alcançar o quociente eleitoral, que é calculado dividindo o total de votos válidos pelo número de cadeiras em disputa na Assembleia. Quanto mais candidatos competitivos uma legenda coloca na rua, puxando voto em bases diferentes do estado, maior a chance de somar votos suficientes para bater esse número e converter votação em cadeira extra pela regra de sobras, conhecida como o sistema 20/80. Uma nominata mais numerosa e mais pulverizada geograficamente poderia levar o PSD a somar votos suficientes para bater o quociente eleitoral e eleger um terceiro nome. Só que a nominata foi desenhada de um jeito que trava essa conta, concentrando força em poucos nomes e deixando de fora candidaturas que poderiam ampliar o alcance regional do partido. Sem alcançar o quociente, o PSD fica restrito aos dois deputados que já tem, mesmo que existam candidaturas fortes dentro da própria legenda.
O ex prefeito que perdeu a vaga que parecia certa
Jurandir Oliveira sentiu esse efeito de perto. Ex prefeito de Santa Luzia Oeste, ele renunciou ao mandato para tentar a cadeira na Assembleia, uma decisão que não é pequena para quem já ocupava o cargo mais alto do município. Chegou a ser apontado como favorito à terceira vaga do PSD, com estimativa de 10 mil a 12 mil votos, número que em eleições passadas costuma bastar para eleger um deputado estadual em Rondônia. Com o novo desenho da nominata, porém, essa conta não fecha mais do jeito que fechava antes, porque a votação de Oliveira, isolada, não é suficiente para o partido bater o quociente sozinho, e a lista não foi organizada para somar forças ao redor dele. O resultado é uma candidatura que nasceu com força real e perde competitividade não pela vontade do eleitor, mas pela arquitetura da própria sigla.
Cinco nomes disputam a quarta cadeira
A quarta vaga, que antes parecia alcançável, virou uma disputa apertada entre cinco pré candidatos com potencial de voto parecido, todos na faixa de 5 mil a 8 mil votos. Eyde Brasil, deputado em busca de reeleição e com estrutura já testada em pleitos anteriores, Jesuíno Boabaid, nome que vem crescendo em bases municipais específicas, o coronel Vital, com histórico na segurança pública e eleitorado fiel entre servidores da área, o coronel Jeferson, ex secretário de Saúde e com capital político construído dentro da máquina estadual, e o vereador, empresário e jornalista Everaldo Fogaça, disputam um espaço que, numa nominata diferente, poderia ter sobrado para mais de um deles. Como a lista não foi ampliada para somar votos entre esses nomes, o que poderia ser uma vitória compartilhada virou um confronto direto, no qual só um sai vencedor e os outros quatro ficam sem mandato, mesmo somando entre si uma votação expressiva.
Quem sai ganhando com o PSD mais fraco
A pergunta que fica é por que o governador enfraqueceria o próprio partido. A resposta aparece quando se olha para onde vão as vagas que o PSD deixa de eleger. Elas não somem, migram para partidos que já cercam o Palácio Rio Madeira e reúnem deputados alinhados ao governo, funcionando como uma espécie de reserva de força política fora da sigla oficial do governador.
O PRD, comandado pelo chefe da Casa Civil, já tem seis deputados de mandato, disputa três vagas nesta eleição e tem chance de somar mais uma cadeira com a fragmentação do PSD, o que levaria a bancada do partido a sete deputados na próxima legislatura, um salto relevante para uma sigla que cresceu justamente puxada pela proximidade com o Executivo estadual. O Avante, do deputado Marcelo Cruz, hoje com um deputado eleito, também deve se beneficiar da mesma lógica e sair da eleição com duas, quem sabe três cadeiras, triplicando sua presença atual na Assembleia. Nos dois casos, o crescimento não vem de uma renovação natural de quadros, vem diretamente do espaço que o PSD deixou de ocupar por causa da própria configuração da lista.
Esse desenho ajuda a explicar por que deputados de partidos menores, sem grande estrutura própria, aparecem com folga em pesquisas internas de viabilidade. Eles não crescem sozinhos, crescem porque a legenda do governador abre mão de parte do seu próprio espaço para garantir que essas cadeiras fiquem nas mãos de quem já demonstrou lealdade ao Palácio em votações anteriores na Assembleia.
A confirmação da nominata final do PSD e das demais siglas ainda depende do registro das candidaturas na Justiça Eleitoral, que segue o calendário definido pelo TSE para as eleições deste ano.
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