O nome de Virginia Fonseca chegou formalmente à Polícia Federal depois que os Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf indicaram operações suspeitas em contas ligadas à influenciadora e a empresas do seu grupo. A reportagem que trouxe isso a público foi publicada ontem pela Revista Piauí e gerou uma comparação imediata com o caso de Deolane Bezerra. Soa parecido, mas não é.
Deolane foi presa há pouco mais de duas semanas na Operação Vérnix, uma ação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil. A acusação é de que empresas ligadas a ela teriam ajudado a ocultar recursos do PCC por meio de apostas, rifas virtuais e empresas de fachada. A investigação, que começou em 2019, apontou movimentações financeiras incompatíveis e crescimento patrimonial sem lastro econômico. Na mesma operação estava Marcola. Isso é acusação direta de participação na estrutura da facção.
Com Virginia, o fio é completamente outro. A investigação da PF busca apurar a legalidade das operações, a origem dos recursos e a eventual prática de crimes financeiros, fiscais ou de lavagem de dinheiro. Ninguém está dizendo que ela é integrante do PCC. O que existe até agora é uma apuração financeira e uma origem societária que pede explicação.
A WePink, principal negócio de Virginia Fonseca, com faturamento de R$ 1,3 bilhão em 2025, tem sua origem sob escrutínio. A empresa foi fundada pelo casal Samara Cahanovich Martins e Thiago Stabile, que antes eram donos da Pink Lash, especializada em design de sobrancelhas e cílios. A Pink Lash, por sua vez, tinha como sócia Karen de Moura Tanaka Mori, conhecida como Japa do PCC, viúva de Wagner Ferreira da Silva, o “Cabelo Duro”, apontado pelas autoridades como integrante do Primeiro Comando da Capital.
Em entrevista à Piauí, Karen afirmou ter investido R$ 800 mil na abertura da primeira unidade da Pink Lash em 2017, em São Paulo, e disse que o dinheiro veio da venda de um carro do marido. Quando a Piauí perguntou se o negócio nasceu com recursos de uma liderança da facção criminosa, ela respondeu que sim.
A sociedade com Karen terminou antes da WePink existir. Martins e Stabile romperam com Karen e fundaram a WePink em sociedade com Virginia e o empresário chinês Chaopeng Tan. Virginia conheceu Karen em eventos da Pink Lash e, ao se posicionar sobre o assunto, afirmou que não associa pessoas a possíveis envolvimentos de terceiros apenas por relações comerciais ou convivência, e disse confiar nos sócios porque nunca teve motivos para suspeitar deles.
Mas a apuração vai além da origem da marca. A Talismã Digital, empresa que Virginia mantinha com o ex-marido Zé Felipe, recebeu cinco depósitos via Pix entre março e setembro de 2024 da AMP Pay Marketing, sediada em Itajaí, Santa Catarina, num total de R$ 17,7 milhões, operações consideradas suspeitas pelos investigadores.
A Wpink Suplementos Nutricionais também gerou atenção, com movimentações de R$ 43,6 milhões em créditos e R$ 43,5 milhões em débitos entre janeiro e março de 2025, volume considerado incompatível com o faturamento informado pela empresa. Além disso, entre novembro de 2023 e maio de 2024, foram registradas 190 operações totalizando cerca de R$ 500 mil, realizadas em caixas eletrônicos de agências bancárias distintas. Esse tipo de padrão costuma acionar os sistemas de inteligência financeira.
Virginia possui cerca de 56,6 milhões de seguidores no Instagram, sendo a segunda mulher com maior número de seguidores no Brasil, atrás apenas da cantora Anitta. Ela passou pela CPI das Bets, cujo relatório final pediu o indiciamento de 16 pessoas, mas foi encerrada sem consequências diretas para a influenciadora depois que o Senado rejeitou o relatório. O material produzido durante os sete meses da comissão, porém, ficou como base para a nova apuração da Polícia Federal, que concentra esforços em determinar se houve qualquer infração financeira, fiscal ou lavagem de dinheiro. Virginia segue sem indiciamento.
Com informações da Revista Piauí.
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