Políticos se aglutinam, fazem filiações cruzadas e afunilam chapas ao Legislativo

As trocas de partido incluíram até mesmo uma estratégia de filiações cruzadas, formando uma espécie de coligação informal entre legendas na disputa por cadeiras no Legislativo.

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Na primeira eleição para a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas após o fim das coligações, políticos com mandato aproveitaram a janela partidária, convergiram para menos partidos e afunilaram as chapas competitivas na disputa para o Legislativo nos estados.

O movimento de maior concentração partidária aconteceu sobretudo em estados menores, com menos vagas e onde, proporcionalmente, é preciso ter mais votos para atingir o quociente eleitoral.

As trocas de partido incluíram até mesmo uma estratégia de filiações cruzadas, formando uma espécie de coligação informal entre legendas na disputa por cadeiras no Legislativo.

Neste formato de parceria, um dos partidos concentra as candidaturas para a Câmara dos Deputados em determinado estado enquanto outra legenda lança apenas postulantes à Assembleia Legislativa.

A manobra difere da federação partidária, mecanismo onde os partidos devem se aliar nacionalmente e devem permanecer quatro anos atuando conjuntamente. Até o momento foram acertadas três federações: entre PT, PC do B e PV, entre PSDB e Cidadania e entre PSOL e Rede.

As trocas durante a janela partidária geraram maior concentração partidária nas Assembleias de estados como Alagoas, Paraíba, Sergipe, Rio Grande do Norte, Piauí e Tocantins. Em geral, os deputados rumaram para o mesmo partido do governador.

Em Alagoas, por exemplo, 15 dos 27 deputados estaduais com mandato se filiaram ao MDB em uma articulação liderada pelo então governador Renan Filho e pelo presidente da Assembleia, deputado estadual Marcelo Victor (MDB).

A aglutinação foi uma estratégia de sobrevivência do grupo político. “Com a nova regra eleitoral, não tivemos a opção de abrir várias frentes para disputar as vagas na Assembleia”, justifica o deputado estadual Paulo Dantas, pré-candidato a governador pelo MDB em Alagoas.

O estado terá uma eleição atípica: Renan Filho renunciou ao mandato para concorrer ao Senado e, como o vice-governador já havia renunciado em 2020, a Assembleia terá que realizar uma eleição indireta para eleger um governador tampão.

O cenário acabou fortalecendo os deputados estaduais, que ganharam poder para negociar posições com o então governador e com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), principal nome da oposição em Alagoas.

Parte dos deputados iria para a União Brasil, plano abortado após o partido ter sido cooptado por Lira em uma articulação que envolveu Bahia e Piauí.

“Não houvesse esse rompimento, o MDB não estaria tão forte localmente”, avalia a cientista política Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas.

O padrão de concentração nas Assembleias se repete em outros estados de menor porte. No Tocantins, por exemplo, 11 dos 24 deputados estaduais estão filiados ao Republicanos, partido do governador Wanderlei Barbosa.

Na Paraíba, os deputados estaduais se concentraram em dois partidos: o PSB, legenda do governador e candidato à reeleição João Azevêdo, que agora, tem 9 deputados. Já o Republicanos se firmou como principal aliado com 6 deputados.

No Rio Grande do Norte, metade dos 24 deputados estaduais foram para o PSDB, fazendo com que o partido se tornasse o fiel da balança na disputa entre a governadora Fátima Bezerra (PT) e o grupo da oposição, cujo candidato ainda não foi definido.

No Piauí, o PT do ex-governador e pré-candidato a Senado Wellington Dias ganhou cinco novas adesões na Assembleia Legislativa. Agora, tem 12 dos 30 deputados estaduais do estado.

O estado também foi palco de uma parceria informal entre o PSD e o MDB, que adotaram uma estratégia de filiações cruzadas.

Antes do fim da janela partidária, os principais pré-candidatos a deputado federal do MDB migraram para o PSD. No sentido contrário, os postulantes à Assembleia Legislativa do Piauí foram para o MDB.

“Considerando a impossibilidade de uma federação entre MDB e PSD ao nível nacional, os líderes locais buscaram uma alternativa. Com poucas cadeiras em disputa, os políticos buscaram partidos mais estruturados”, afirma o cientista político Vítor Sandes, da Universidade Federal do Piauí.

Foram para o PSD nomes umbilicalmente ligados aos principais líderes do MDB no estado, caso do pré-candidato a deputado federal Castro Neto, filho do senador Marcelo Castro.

O movimento causou irritação na cúpula do MDB nacional, visto que o tamanho da bancada federal é o parâmetro para distribuição dos fundos partidários e eleitoral a cada legislatura.

Em Alagoas, PSB e PSDB chegaram a discutir a formação de uma aliança cruzada onde os tucanos formariam a chapa para a Assembleia Legislativa e os pessebistas para a Câmara dos Deputados.

O acordo, contudo, foi deixado de lado após o senador Rodrigo Cunha trocar o PSDB pela União Brasil, esvaziando o seu antigo partido. Fechada a janela partidária, o PSDB alagoano decidiu que terá candidatos apenas à Câmara dos Deputados e tentará reeleger o deputado federal Pedro Vilela.

Mesmo partidos estruturados estão com dificuldades de formar nominatas em estados menores, caso do MDB em Sergipe e no Espírito Santo.

Com nomes fortes para concorrer ao Senado nestes estados –a senadora Rose de Freitas (ES) e ex-governador Jackson Barreto (SE)–, o partido enfrenta dificuldades para formar chapas competitivas na eleição proporcional.

Em Sergipe, 8 dos 24 deputados estaduais foram para o PSD, legenda do governador Belivaldo Chagas, e o MDB ficou sem representantes na Assembleia.

Já no Rio Grande do Norte, o PP terá chapa apenas para deputado federal.

“Não tivemos tempo hábil para dialogar com as bases e decidimos centrar forças na nossa chapa para a Câmara dos Deputados”, justifica o presidente estadual do partido, deputado federal Beto Rosado.

Na avaliação da cientista política Lara Mesquita, pesquisadora da FGV, o cenário de afunilamento já era esperado com o fim das coligações nas eleições proporcionais e com a cláusula de barreira, que tornou partidos pequenos menos atrativos.

“É um movimento que acontece seguindo os próprios interesses dos candidatos, que não querem concorrer em um partido sem recursos e sem tempo de televisão. Não basta apenas ter uma lista de candidatos fortes no seu estado, é preciso estar em um partido que continuará existindo”, afirma.

Para superar a cláusula de barreira em 2022, os partidos terão que atingir 2% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados ou eleger pelo menos 11 deputados federais distribuídos em nove estados.

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